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Minha Maioridade e o Protestantismo!

Minha Maioridade e o Protestantismo

Catolicidade: a essência da reforma que renova

Por André Gomes Quirino

Quando criança, eu tentei criar "uma heresia só minha", para evocar as palavras do católico Chesterton. Não sei que idade eu tinha – talvez uns seis anos –, mas aquela invencionice por algum motivo me marcou. Pela mesma época em que procurava meios de dominar o clima (ordenar a chuva, o sol, o vento), eu houvera escutado que, sempre que chove, o céu está chorando pela morte de alguém. Acreditei. E as chuvas, para mim, passaram a ser mais melancólicas do que o normal. Numa bela manhã (porque aprecio mais as manhãs chuvosas do que as manhãs ensolaradas), num terreno abandonado que ficava em frente à minha casa, a chuva apagava uma fogueira que estivera acesa, fazendo-a evaporar. Incrementei a heresia: não só a chuva representava que alguém havia morrido, como a fumaça que subia para o céu representava a pessoa morta em caminho à eternidade. Por alguns minutos, levei aquilo muito a sério. Improvisei uma reza de oferecimento e, não contente com a função de mentor intelectual, quis ser o sacerdote daquele ritual: fui até a chuva participar de sua melancolia, fingir que as gotas que escorriam em minha face eram lágrimas. Depois, a fim de aprimorar o drama, peguei um pedaço de tijolo que estava no chão e, com ele, pus-me a escrever nomes aleatórios num muro ao meu lado, como desse baixa nas almas que se despediam da Terra. Lembro-me de ter escrito nomes que ouvira na igreja, como Abraão ou Moisés (é bem provável que não com a grafia correta). Alguém me chamou, repreendendo-me por estar na chuva. Resisti com um silêncio de mártir e encerrei a liturgia. Se não me falha a memória, foi assim que aconteceu.

O pecado original da minha seita foi a arbitrariedade. Não havia um paradigma para aquele ritual, nem um testemunho que me garantisse a validade da crença. Acreditei numa invenção despropositada. Como Eva acreditou no ludibrio da serpente e persuadiu Adão do mesmo, meu amigo que primeiramente ouvira sobre o suposto significado mórbido das chuvas foi ludibriado por ele e me persuadiu do erro. Eu quis ser um profeta, mas fui – e sou – só mais um Adão. Isto é pecado original. O pecado original da minha seita foi ignorá-lo. Deus estabelecera Adão como dominador sobre todo o resto da criação; deu-lhe até a função de inventar nomes para as outras criaturas. Adão quis conhecer os mistérios da criação, quis passar de inventor a criador. Ele poderia comer de todo fruto do jardim, inclusive do que dava – e dá – a vida eterna. Mas preferiu comer do fruto proibido. Assim como Lúcifer, Adão quis ser como Deus. Assim como Adão, eu desprezei a real beleza da chuva, do fogo, do sol e do vento – criações de Deus – e quis usá-los a meu bel-prazer. A árvore da vida está agora afastada de nós por espadas flamejantes e querubins. Fomos expulsos do Éden.

Mais tarde vim a entender que a semente de Eva finalmente feriu o calcanhar da semente da serpente quando Deus se fez homem, nascendo de uma virgem. O pecado original nos impossibilita de chegar até Deus, mas Ele veio até nós – e fundou uma Igreja.

Estamos a 31 de outubro de 2013. Hoje completam-se 496 anos desde o início da Reforma Protestante. Em quatro anos, o movimento protestante alcançará meio milênio de existência. Terá alcançado a maioridade? Acredito que sim. Os princípios de Sola Scriptura, Solus Christus, Sola Fide, Sola Gratia e Soli Deo Gloria reformaram minha vida e reformaram o mundo. Têm tudo para continuar a reformar. Mas o que merece maior atenção é que, se a Reforma Protestante aconteceu há quinhentos anos, a Igreja Protestante foi fundada há dois mil. Não fosse assim, eu e todos os outros Adões ainda seríamos escravos da arbitrariedade, tentando criar realidades a partir de palavras aleatórias, quando o Verbo divino que cria o que chama já descera à criação e já nos dera uma Palavra que testifica o Seu propósito. Para chegarmos aos quinhentos anos de Reforma como "maiores de idade", o que nos falta é, a meu ver, a consciência de que "somos católicos". Isso é o que enfatiza o artigo "Remember you are Catholic", de James K. A. Smith – que cita, também, a proposta de George Weigel, em "Letters to a Young Catholic", de que "o pensamento cristão adote um 'ecumenismo do tempo', empregando conhecimento e discernimento de qualquer época histórica". Não se trata de um projeto ingênuo e precipitado de união de correntes divergentes, sem maior reflexão. Trata-se de valorizar o que há em comum entre essas correntes e reconhecer o que elas têm a ensinar e aprender mutuamente.

O que nós, protestantes, por exemplo, temos a aprender com o catolicismo? Para responder a essa pergunta, contextualizo: todos concordamos, para citar o caso mais gritante, que neopentecostalismo e teologia da prosperidade são invencionices que nada têm de cristãs, protestantes (sobra algum dos solas nelas?) ou bíblicas – quase como a minha seita da infância –, ao mesmo tempo em que se proliferam assustadoramente nas igrejas evangélicas. Neste sentido, precisamos urgentemente de uma grande nova reforma. Isso invalida o movimento do século XVI? Com certeza, não. Naquela época já se dizia: "Ecclesia reformata et semper reformanda est" – o que implica numa postura, típica da Reforma, de constante autocrítica. Mas, além dessa implicação, há também a de uma incessante busca por unidade (a verdadeira, em que se une combatendo os erros; não a ingênua), por universalidade, por tradição. Enfim: o que é isso, senão catolicidade?

Não quero falar sobre o que está além da minha alçada. Mal acabo de chegar à maioridade. Repito o que escreveu Guilherme de Carvalho no último aniversário da Reforma: "Concordo que precisamos desesperadamente de ‘reforma’. Mas o que significaria reforma hoje, considerando a situação real da igreja evangélica? Creio que a única reforma possível para nós hoje é a redescoberta da catolicidade da Igreja. A igreja evangélica não sofre por falta de protestantismo, mas de catolicismo. É por isso que ela se fragmenta em um punhado de seitas pseudoevangélicas. E, antes que alguém se assuste, essa catolicidade não está no romanismo. Está no evangelho, sem dúvida. Mas, enquanto a igreja romana perde o evangelho por falta de reforma, a igreja evangélica perde o evangelho por falta de catolicidade e de seus veículos: credo, comunhão, tradição, unidade natureza-graça, história, heróis, e a visão de um Deus Trino que seja maior do que os nossos sentimentos e projetos religiosos".

Não usei uma experiência pessoal como ponto de partida deste texto por achar que o mundo deva se adequar ao meu umbigo (esse é precisamente o significado de "idiotia") – mas, pelo contrário, porque sou só mais um humano, que revive os dramas por que passaram bilhões de antepassados meus. Como é convencionado pela sociedade de que faço parte, a partir de hoje posso dizer que sou "maior de idade". Mas isso é uma mera formalidade, não garante maturidade, muito menos vida abundante. Fomos expulsos do Éden, vocês se lembram? E, para voltar a ter acesso à árvore da vida, é preciso ter fé na graça de Deus, revelada em Cristo e explanada nas Escrituras, que nos conclama a viver para Sua glória. O protestantismo não é "só meu", ao contrário da seita que criei na infância. Os mesmos cristãos que proclamam "Sola Scriptura! Solus Christus! Sola Fide! Sola Gratia! Soli Deo Gloria!" devem confessar: "cremos na Santa Igreja Universal". Assim vamos sendo reformados. Feliz 31 de outubro!

_________________

André Gomes Quirino, 18 anos, membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus- Ministério Ipiranga e é estudante.

Fonte:http://www.teologiapentecostal.com/2013/10/minha-maioridade-e-o-protestantismo.html

Que o SENHOR tenha misericórdia de nós! AMÉM!

Comentários

Walter Filho disse…
Entendi claramente e assino em baixo!

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