Pular para o conteúdo principal

O ABURGUESAMENTO DA “FÉ”


Por Samuel Torralbo
Segundo alguns sociólogos e pensadores modernos, um dos fenômenos que surgiu após a segunda guerra mundial, foi o “aburguesamento dos despossuídos”, caracterizado pela substituição do “ser” pelo “ter”. Estabelecendo assim, como tendência cultural o endeusamento do mercado de consumo, onde a ideia era disponibilizar o poder de consumo para as pessoas, enquanto que, cada vez mais a capacidade de se humanizar, contemplar e aprofundar-se na existência tornar-se-ia pífia e ínfima.
Uma vez que, todo homem é um ser cultural, quase sempre, de maneira normativa a vida passa pela concepção da cultura em desenvolvimento no tempo e espaço. É o chamado “movimento das massas”, que diretamente é afetada pelos meios formatadores de valores e significados relacionados à vida em sociedade.
São inúmeras as provas de que a percepção, significado, e motivação de um povo (incluindo a igreja) são afetadas e influenciadas na maioria das vezes diretamente pelo momento histórico. Por exemplo, a reforma protestante em síntese foi uma resposta ao sincretismo religioso, alienação, e abusos cometidos pela igreja católica durante quinze séculos. Observe ainda que, no período da segunda guerra mundial as pregações de natureza escatológica tiveram um aumento significativo, ao mesmo tempo em que, o desenvolvimento da teologia da libertação na América Latina, aconteceu em decorrência a corrupção, desigualdade e injustiças sociais.
É incrível como o cenário sociocultural pode alterar motivações, interesses e até mesmo a mensagem anunciada por algumas comunidades cristãs. De modo que, dentro do contexto religioso no Brasil, o protestantismo iniciou-se como um fenômeno missionário que objetivava o anúncio puro e simples do evangelho de Cristo Jesus. A realidade socioeconômica do Brasil no inicio do século 20 era ainda mais precária e subdesenvolvida, enquanto que, a mensagem da igreja era fundamentada na urgência da salvação e da esperança eterna com Cristo.
A manutenção da visão missionária, como também da pregação pura e simples do evangelho permaneceu latente no coração da igreja brasileira provavelmente até o inicio da década de 80, quando teve inicio o movimento neopentecostal, exatamente no período em que, terminava a ditadura militar, e o Brasil começava a respirar novos ares da democracia.
É no mínimo interessante observar que, no mesmo berço sociopolítico que abriu as fronteiras do mercado, para a entrada de mais capital e consumo, nasceu também o movimento religioso que afrouxaria os marcos doutrinários que sempre pautaram a vida da igreja.
A convergência de fenômenos como: o estimulo ao capital e consumo, a abertura e flexibilização da mídia, aumento do poder de compra, e o desejo coletivo em consumir, proporcionaram o cenário ideal para o crescimento da teologia da prosperidade no Brasil.
Sem que muitos percebessem a relativização de doutrinas bíblicas foram acontecendo, onde a vida espiritual para muitos evangélicos não estaria mais atrelada a piedade, santidade, amor e obediência a palavra de Deus, mas antes, ao poder de consumo, acumulo, e ostentação social.
Aos poucos o culto centralizado em Cristo, foi sendo substituído pelo culto a personalidade humana, onde o centro seria o homem com suas demandas, urgências, mimos, e idiossincrasias de fieis alienados do evangelho, mas plugados na prosperidade material.
Na sutileza do tempo, lideranças que prontamente se posicionaram contra o movimento da teologia do consumo, foram sendo vencidos pela ideologia daquilo que “dá certo” e não mais no principio bíblico do que “é certo”.
De modo que, recentemente, estamos presenciando inúmeras comunidades cristãs se prostrando diante do altar da teologia da prosperidade, substituindo os cultos de oração, por culto da vitoria financeira, os encontros de ensino da palavra, por campanhas do consumo. Infelizmente, o “aburguesamento da fé” é uma realidade pós-moderna, e pode ser percebido nas compulsões de inúmeros evangélicos que substituíram a missão de anunciar o evangelho de Cristo, para conquistar em nome da “fé” coisas temporais e superficiais.
Deste modo, outra vez, a história se repete, porém agora no contexto religioso, onde o aburguesamento acontece no campo do materialismo em nome da “fé”, ao mesmo tempo em que, o empobrecimento espiritual é notório através de vidas que afirmam ser discípulos de Cristo, mas que, revelam na praticidade da vida a superficialidade em relação ao conhecimento e submissão a vontade divina revelada pelas escrituras sagradas.
Sendo assim, diante desta sórdida constatação, permanece inalterada uma das mais belas e significativas expressões bíblica que afirma: “E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como escória, para que possa ganhar a Cristo,”(Filipenses 3.8)
***
Samuel Torralbo é colunista do Púlpito Cristão e escreve em seu blog pessoal.
Que o SENHOR tenha misericórdia de nós! AMÉM!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

5 Expressões Sem Sentido Usadas na Igreja Hoje!

As 5 expressões evangélicas mais sem sentido usadas nas Igrejas
5 – EXORTAR Essa expressão é usada de modo equivocado em 100% das Igrejas. Segundo qualquer dicionário, exortar significa “animar, incentivar, estimular”. Logo, exortar o irmão que está em pecado na verdade não significa repreende-lo. Quem está vivendo no erro não precisa de um incentivo, mas de um auxílio. 4 – LEVITA Essa morreu no Antigo Testamento. Os Levitas eram descendentes da Tribo de Levi, e eram encarregados de TODO O SERVIÇO no Templo. Mas Levita tem sido usado como sinônimo de músico. Besteira pura! Pra começar a música no serviço levítico era a menor das tarefas. A faxina, organização e carregar peso nas costas, isso sim era a parte mais importante do trabalho. Levando em conta que não somos judeus, não somos descendentes daquela tribo e também lembrando que o Templo não existe mais, então estamos dispensados do serviço levítico. Músico é músico. Ponto.
3 – PROFETA Segundo a bíblia, profeta é aquele que revela a von…

Denúncia na igreja do evangelho quadrangular!

PASTORA DENUNCIA LIDERANÇA DA IGREJA DO EVANGELHO QUADRANGULAR Comentário de Wagner Lemos (ex-membro dessa empresa que muitos chamam de Igreja Quadrangular): Como membro da Quadrangular a mais de 15 anos sei de muita coisa ali… e o que é escancarado é nossa liderança corrupta! Que vê as igrejas como empresas e sua membresia como clientes. Tenho um amigo pastor que foi designado para pastorear uma igreja Quadrangular numa cidade vizinha a nossa, e quando retornou me contou com lagrimas nos olhos: A reunião de liderança da minha região é uma vergonha! Tive que ouvir coisas como: Bater metas financeiras… Arrecadação… Propósitos… Não ouve a menção de almas! Apenas dinheiro… Parecia estar numa reunião de empresários sem ser uma… E esse vídeo que achei na internet só comprova aquilo que já sabia a muito tempo! Os pastores do alto escalão, normalmente os responsável por cada região sobrevivem das igrejas de bairro. Os pastores se viram como podem para manter a igreja e ainda enviar a porcent…

95 Teses para a Igreja de Hoje

Reafirmamos a necessidade das 95 teses de Lutero para Igreja. Há uma necessidade de uma Reforma nos dias atuais!
1 – Reafirmamos a supremacia das Escrituras Sagradas sobre quaisquer visões, sonhos ou novas revelações que possam aparecer. (Mc 13.31) 2 – Entendemos que todas as doutrinas, idéias, projetos ou ministérios devem passar pelo crivo da Palavra de Deus, levando-se em conta sua total revelação em Cristo e no Novo Testamento do Seu sangue. (Hb 1.1-2) 3 – Repudiamos toda e qualquer tentativa de utilização do texto sagrado visando a manipulação e domínio do povo que, sinceramente, deseja seguir a Deus. (2 Pe 1.20) 4 – Cremos que a Bíblia é a Palavra de Deus e que contém TODA a revelação que Deus julgou necessária para todos os povos, em todos os tempos, não necessitando de revelações posteriores, sejam essas revelações trazidas por anjos, profetas ou quaisquer outras pessoas. (2 Tm 3.16) 5 – Que o ensino coerente das Escrituras volte a ocupar lugar de honra em nossas igrejas. Que haja …