Renato Russo e o sagrado coração!


RENATO RUSSO E O SAGRADO CORAÇÃO


Por Antognoni José Misael da Silva
Conheci a banda Legião Urbana no fim da minha adolescência, e foi nesse meu mundinho complicado que meus medos, dúvidas, anseios, alegrias, revoltas e insatisfações encontravam um “abrigo”, muito embora esse “abrigo” fosse um lugar com pessoas iguaiszinhas a mim à procura de um sentido pra vida. Lembro bastante de algumas canções do Legião, ou do Renato Russo, afinal não dá pra falar de Legião sem Renato, ele era o centro da banda, era a intuição e a performance viva do Rock brasileiro da época.
O pensamento da juventude brasileira nos anos 80 em desgosto com ditadura militar e que vivia as incertezas em relação ao futuro e a si própria chegaram até mim nos anos 90, e algumas canções confesso que jamais esquecerei.
“Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou, mas tenho muito tempo, temos todo tempo do mundo.” Tempo Perdido
“Ficaremos acordados imaginando alguma solução pra que esse nosso egoísmo não destrua nosso coração?” Será
“Nas favelas, no Senado, sujeira pra todo lado, ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação. Que País é esse?” Que País é esse
“E há tempos são os jovens que adoecem. E há tempos o encanto está ausente e há ferrugem nos sorrisos só o acaso estende os braços a quem procura abrigo e proteção…” Há tempos
“Quem me dera ao menos uma vez provar que quem tem mais do que precisa ter quase sempre se convence que não tem o bastante fala demais por não ter nada a dizer.” Índios
Analisar Renato Russo e as suas mensagens me faz perceber que embora sua música não fosse tão comercial, o que lhe tornou um ícone do Rock para os jovens da época, foi não economizar sinceridade. De fato, ninguém mais do que ele próprio se identificava como o que cantava. Cantou seus sonhos, frustrações, medo, revolta, otimismo, e por fim, a sua própria morte – o Rock In Roll tão idealizado pela geração anos 60 e assimilada por ele, logo foi dando lugar à angústia, melancolia e ao maior vazio que o homem pode sentir.
No fim de sua vida, trancado no seu quarto, Renato compôs “L’Aventura” (do álbum “A tempestade” – 1996): “Quando tudo está perdido sempre existe um caminho, quando tudo está perdido sempre existe uma luz…. Mas não me diga isso..”. Nessa canção ele torna a tristeza, a febre e a dor em uma obra de arte em fase de despedida. Sua angústia me fez lembrar que nós também não estamos isentos de sofrê-las, porém, apenas com uma diferença: sempre existirá “o caminho” e “a luz”. Equivocados pensam que o cristão verdadeiro não sofre de medos e não passará por angústias, ao contrário do que a condição humana nos mostra, “meros escravos das emoções”.
Diante de um quadro irreversível, debilitado e pesando em média 45 quilos, Renato escreve a canção “Sagrado Coração”, que só vem a ser divulgada no último disco “Uma Outra Estação”, 1997, no ano seguinte de sua morte. Essa música gravada, que não possui o registro de sua bela voz, revela-nos uma confissão final em busca do sentido pleno para sua existência.
Abaixo, a letra com os grifes que me chamaram atenção:
SAGRADO CORAÇÃO
Sei que tenho um coração
Mas é difícil de explicar
De falar de bondade e gratidão
E estas coisas que ninguém gosta de falar
Falam de algum lugar
Mas onde é que está?
Onde há virtude e inteligência
E as pessoas são sensíveis
E que a luz no coração
é o que pode me salvar
Mas não acredito nisso
Tento, mas é só de vez em quando
Onde está este lugar?
Onde está essa luz?
Se o que vejo é tão triste
E o que fazemos tão errado?
E me disseram!
Este lugar pode estar sempre ao seu lado
E a alegria dentro de você
Porque sua vida é luz
E quando vi seus olhos
E a alegria no seu corpo
E o sorriso nos seus lábios
Eu quase acreditei
Mas é tão difícil
Por isso lhe peço por favor
Pense em mim, ore por mim
E me diga:
- Este lugar distante está dentro de você
E me diga que nossa vida é luz
Me fale do sagrado coração
Porque eu preciso de ajuda


Quando leio ou escuto Renato Russo fora da perspectiva técnica, musical e estilista, não priorizo a prática de vida regressa ou seus ideais de vida, mas prefiro observar o seu estado de essência. Às vezes nós como Cristãos supervalorizamos o arcabouço, o estético ou a ideia representativa de alguém, mas não atentamos para a condição interna de um pecador distante de Deus, ou seja, a de alguém com um coração aflito e cansado. Nesse texto Renato roga por uma resposta, “Onde está este lugar? Onde está essa luz ?” e nesta hora lembro que Deus “pôs no coração do homem o anseio pela eternidade”(Ecl 3.11), e esse sentimento só será preenchido quando lhe for colocado o Sagrado Coração sensível a voz de Deus.
“Me fale do sagrado coração porque eu preciso de ajuda”, são as últimas palavras dele em sua canção. Nesse instante, Renato não clamava pela cura da AIDS, por algum antídoto medicinal ou paliativo que aliviasse suas dores, a sua dor era existencial de reconhecimento de morte espiritual sob a sensação de partir para outra com a ausência da certeza do porvir. Termino dizendo que Renato era simplesmente um poeta distante de Deus que clamava por Ele sem saber chamá-Lo.
Que possamos em nosso dia-dia aprender a olhar além das aparências e dos discursos, visando em que estado de coração se encontra aqueles que nos rodeiam, só assim evitaremos escutar em tom de exortação perante as nossas negligências, quando não falamos do amor de Jesus ao nosso próximo, alguém se dirigir a nós e dizer “me fale do sagrado coração porque eu preciso de ajuda”.
***
Antognoni José Misael da Silva é músico, pós-graduando em História Cultural (UEPB), e colaborador do Púlpito Cristão
Que o SENHOR tenha misericórdia de nós! AMÉM!

Comentários

Sarah Moura disse…
O desejo profundo do meu coração é que Deus tenha ido ao encontro do Renato... ele sempre demonstrou essa sede em suas letras... e a Palavra fala que quem buscar de todo coração vai encontrar...

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